22 de jul. de 2010

Com Bróder, Festival de Paulínia se redime no final

Caio Blat, Jonathan Haagensen e Silvio Guindane em cena de Bróder (Foto: Columbia Pictures)
 
Depois da das "bombas" As Doze Estrelas, na sexta passada, e Dores & Amores, na segunda, o terceiro festival de cinema de Paulínia se redimiu, ontem, em sua última noite de competição, com o curta Ensolarado, o documentário Lixo Extraordinário e o longa de ficção Bróder.
Na definição do diretor Jeferson De, Bróder é a "celebração da amizade" ("um filme meio viadinho até", brincou) a retratar a "juventude excluída" do Capão Redondo, bairro pobre e violento da periferia de São Paulo.
Movimenta-se a partir do reencontro de três amigos que cresceram no Capão: um jogador de futebol que joga na Espanha (Jonathan Haagensen), um que deixou o bairro, mas continua pobre (Silvio Guindane), e um terceiro, que permaneceu na área e se envolveu com o crime (Caio Blat, em ótima atuação).
Jorge Benjor e Racionais MC's dominam a trilha sonora desse filme de elenco negro (até o personagem de Caio Blat se diz negro), estreia em longa-metragem de um cineasta que vive a afirmar uma negritude sem estereótipos (Jeferson De é autor do livro Dogma Feijoada e o Cinema Negro Brasileiro).
Já o documentário Lixo Extraordinário foi o filme mais aplaudido de todo o festival de Paulínia. O público ovacionou, de pé. Mas a recepção foi mais para personagens do longa, presentes, do que ao filme.

Marat Sebastiao, obra de Vik Muniz produzida no lixão de Jardim Gramacho 

Lixo Extraordinário documenta o trabalho do artista plástico Vik Muniz com catadores de resíduos sólidos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, na região metropolitana do Rio. Todos os dias, catadores retiram 200 toneladas de material reciclável do maior lixão do mundo, o equivalente ao lixo produzido por uma cidade de 400 mil habitantes.
Muniz troca Nova York pelo lixão. Lá, fotografa catadores e os orienta a recolher determinados materiais. As fotos servem para a criação de novas imagens construídas com lixo, que são fotografadas e viram quadros. O dinheiro da venda dos quadros (US$ 250 mil) é revertida para a associação dos catadores.
Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, presidente dessa associação, emociona o público e surpreende pela articulação e capacidade intelectual, ao fazer uma sobreposição de O Princípe, de Maquiavel, para o Rio de Janeiro atual. Faz uma paralelo entre a divisão da cidade entre morros e áreas dominadas por grupos de traficantes com a Itália do século 15, fragmentada em monarquias. O exemplar de O Príncipe que ele leu foi encontrado no lixo.
O documentário, no entanto, funciona como uma obra de marketing de Vik Muniz, feito para mostrar para a gringolândia (é parcialmente falado em inglês) que ele também teve origem humilde e desenvolve trabalho social visando transformar pela arte.
Justiça seja feita, o festival de Paulínia não teve boas obras apenas no último dia. Exibiu na terça-feira a boa comédia urbana Malu de Bicicleta. E os documentários Uma Noite em 67, na segunda, sobre o festival de música da TV Record, e São Paulo Companhia de Dança, no sábado, sobre o corpo de balé de mesmo nome. Sem contar dois bons curtas (Tempestade e Eu Não Quero Voltar Sozinho) e a reapresentação de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, homenageado pelo evento.
FICHA TÉCNICA
Bróder (longa de ficção, 93 minutos, digital)
Direção: Jeferson De
Produção: Paulo Boccato, Mayra Lucas, Jeferson De, Renata Moura
Roteiro: Jeferson De, Newton Cannito
Elenco: Caio Blat, Cássia Kiss, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cintia Rosa, Ailton Graça, Lidi Lisboa, Du Bronks, Eduardo Acaiabe
Lixo Extraordinário (documentário, 99 minutos, HD)
Direção: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley
Produção: Hank Levine, Angus Aynsley

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