Antes da exibição de Dores & Amores, ontem (19) à noite no festival de cinema de Paulínia, o diretor e produtor Ricardo Pinto e Silva anunciou que a obra era um filme sobre o amor.
Era propaganda enganosa. O que se viu na tela foi uma comédia romântica de pegação, com personagens rasos, que trocam de "amores" como de roupas.
De estética publicitária, com narração em off e vinhetas gráficas a descreverem o óbvio, Dores & Amores foi detestado pela crítica. O público presente ao teatro de Paulínia aplaudiu contidamente, talvez por educação.
O debate sobre o filme, no início da tarde de hoje (20), foi tenso. O diretor respondeu rispidamente a jornalistas que demonstraram desaprovação ao filme. Jogando para a plateia, perguntou quantas pessoas gostaram da obra. Dos 55 presentes no auditório, só três levantaram o braço. Eram todos da mesma família, e um deles estudou com o diretor. Pinto e Silva, ao final do debate, se exaltou. Se voltou contra a mediadora, a jornalista Maria do Rosário Caetano. "Isso aqui está virando um tribunal", reclamou.
Baseado em livro da escritora gaúcha Claudia Tajes, Dores & Amores se passa no Rio de Janeiro. A protagonista, Júlia (interpretada pela boa atriz de musicais Kiara Sasso), é diretora de marketing de uma agência de modelos.
Quando o filme começa, Júlia está "enferrujada", na definição do diretor Pinto e Silva. No casamento do irmão, conhece Jonas (Marcio Kieling), que passa a ser seu objeto de desejo. Jonas é um grande pegador. Passa boa parte do longa se servindo de uma confeiteira portuguesa, Bel (Cláudia Vieira). O recém-casado irmão de Júlia, Gus, interpretado por Kayky Brito, logo troca a mulher, Dora, pela personal trainer Dora, que passa a ser chamada de Dora 2. A fila anda, e ele troca Dora 2 por Cora, Cora pela confeiteira portuguesa...
Tanta pegação contamina a séria Júlia. Ela se envolve com o personagem de Carlos Casagrande, assessor de impresa da agência de modelos em que ela trabalha. Depois de uma inexplicável dança sexy em uma boate (inexplicável porque o tempo todo ela é uma executiva séria), Júlia troca o compulsivo sexual de Carlos Casagrande pelo melhor amigo de Jonas (Nelson, um crítico de cinema pegador, vivido pelo português Jorge Corrula, que promove sessões privês para... pegar a mulherada).
Em comédias românticas, os casais se separam durante o filme e se reencontram no final. Dores & Amores, cujo roteiro foi revisto em pleno processo de filmagem, "inova". Júlia e Jonas nunca foram um casal. E talvez só o sejam no futuro. Ela decide "guardar" o homem de sua vida, como uma "poupança afetiva", em suas próprias palavras.
Mas isso ainda não é tudo. Dentro do filme há uma telenovela trash, intitulada Vidas sem Rumos. A telenovela não diz a que veio, a não ser para um merchandising de cerveja. Não é uma crítica à televisão, porque, na verdade, é o filme que se alimenta da TV. O roteiro é assinado por Patrícia Müller, autora de novelas em Portugal. As vinhetas gráficas copiam um visual já abandonado pela MTV. A fotografia é a da publicidade. Os clichês do texto vieram diretamente dos piores teledramalhões.
No debate de hoje, o diretor Pinto e Silva defendeu sua cria. Para ele, a crítica não foi capaz de entender as "camadas de significações", a "hipertextualidade" e as "subtramas" da obra.
"Minha intenção era fazer um filme fácil de ser assistido por várias faixas etárias, rápido, com linguagem com várias influências, que cada espectador pudesse compreender com o seu repertório emocional ou de conhecimento, porque não precisa gostar do filme para decifrar todas as camadas de simbologias", afirmou.
Entendeu?
FICHA TÉCNICA
Dores & Amores (longa de ficção, 96 minutos)
Direção: Ricardo Pinto e Silva
Produção: Ricardo Pinto e Silva, Pandora da Cunha Telles, António da Cunha Telles, Suzana Bourg
Roteiro: Patrícia Müller, Dagomir Marquezi, Ricardo Pinto e Silva
Elenco: Kiara Sasso, Márcio Kieling, Carlos Casagrande, Jorge Corulla, Kayky Brito, Cláudia Vieira, Sandra Cóias, Silvia Salgado, Babi Xavier, Fiorella Matheis, Kacau Gomes


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